domingo

Evidente

Me torno divindade
Rogo pragas e me penduro em sacrifício
Eu sou o mundo que destruo
A palavra que cria a luz
A cruz que redime com sangue
Incansávelmente bombeado a cada dia,
Que às vezes verte branca de um centro
Em fogo criador de novas mortes.

Me torno escravo de mim quando alimentado,
sento na privada, escondido
E depois faço a barba, tomo banho
Para trabalhar e me tornar um santo
Mais uma vez engendrando preciosidades
Que assassinam tudo o que amo
Pois a morte da infância
É o maior ato de piedade
Consigo

Necessidades sintetizadas
Por esta máquina sem manual
Com o poder de poder sempre poder
Apodrecer e renascer poderoso quando se quer
Sacralizando este livro breve
Antinomeado, escrito e apagado
Serpenteando em telas dedos fálicos
Nos orgãos infisiológicos da vontade

Corpo templo e ruína de Deuses
Crepúsculo e Aurora que para sempre
nada prometem e
mentem delicados
chegando e saindo a um só tempo.

E a barba cresce ainda,
O salário de um novo círculo potente
Nas veias de um organismo virtual
O contra-cheque de mundo à ser queimado
Como o abismo onde o esperma pinga
dando luz ao assassínio
Pelo qual ele mesmo
foi criado.

Concreto Reflexo

No toque da cidade se escuta o grande gemido.
Acima dos ventos estanques, os astros estalam e penetram na atmosfera, envoltos em edredons de distorção e de fumaça automóvel evolando do meu cigarro.
Ali eu encontrava, à sombra da meia lua, o alívio aterrorizante que só o orvalho enferrujado da madrugada podia prover. Tudo vidro, e poças, e assombrações disfarçadas de pessoas, pelas ruas circulavam no espectro intransferível do visível.
Peregrinei pelo inferno brando escondido em meu casaco de tripas.
Só caminha-se pela noite intoxicado:

Pactos
Contratos
concretos
de plástico
Papel-Moeda

Refletindo no lixo.
Na alma e nos olhos das pessoas e dos edifícios
No coração decorado das mulheres que se esquivam
Na constituição deformada dos machos de chifres eretos
No rangente som da música destilando fermentos

Tudo descolorido sob a luz forte
dos postes
no meu porre sublime.